| Uma ambulância chegou à minha rua, com a sirene ligada, aquela coisa angustiante. É assim, fico em pânico, torcendo para que a doença ou a morte estejam bem longe de mim. Um alívio quando escuto tal barulho distanciar-se. Hoje, ela parou por aqui. Além do que, chovia forte, era de tarde, mas parecia noite no céu. Fui à janela, com os passos vacilantes de uma criança com medo do escuro e de fantasmas. Durante algum tempo, fiquei olhando a movimentação dos homens da ambulância. Vestidos de verde, foram retirando algumas coisas ensacadas, até que, sem pressa alguma, puxaram uma maca, e sobre ela dispuseram os pequenos embrulhos. Fiquei atenta, e só pude pensar que não iriam colocar alguém na maca, depois de utilizá-la como suporte para todo aquele material. Tudo isto, acho que para distanciar-me do assunto principal. Coisas da higiene e da esterilização da doença, vieram salvar-me de um real insuportável Pode isto? Pensamentos substitutos. Como um bom reforço, achei por bem sair da janela, pois olhar mais do que vi, seria pura curiosidade, coisa que eu condeno. Na verdade, não quis ver o desfecho. Não fazer parte da platéia dos espetáculos da miséria humana afasta-me da minhas. A pessoa ali, sendo transportada e sem saber se retorna. Entregue, impotente, e algumas vezes com os olhos a dizer, chegou a minha vez, não, decididamente abomino isto. Ou a ameaça de ter que enfrentar tal possibilidade em meu futuro? Pensando bem, a gente vai sempre arrumando defesas, e delas formamos diversas opiniões. Bom saber disto. Quantas vezes já não me vi entregue, impotente e desamparada? Experiência vencida, melhor não falar dela, melhor proteger dos olhares alheios tanta dor. É isto, evito olhar e condeno quem o faz. Acho até, que é deste material que é feito o tal do politicamente correto. Fiquei lendo por um tempo, e bem mais tarde lembrei-me de voltar à janela. Tudo calmo, a chuva parou, a ambulância não está mais ali, e já chega de análises. |
Só assim compreendo a vida ... Aqui estão algumas observações que fui coletando em meus escritos e registrando em imagens. Existe sempre a possibilidade de uma re-leitura ...
segunda-feira, 16 de abril de 2012
A Ambulância
LIVRO: O Povo Brasileiro - Darcy Ribeiro
Estou lendo-o e achei interessante trazer esta passagem: (sobre o negro)
"Apresado aos quinze anos em sua terra, como se fosse uma caça apanhada em uma armadilha, ele era arrastado pelo pombeiro-mercador africanos de escravos-para a praia, onde seria resgatado em troca de tabaco, aguardente e bugingangas. Dali partiam em comboios, pescoço atado a pescoço com outros negro, numa corda puxada até o porto e o tumbeiro. Metido no navio, era deitado no meio de cem outros para ocupar, por meios e meio o exíguo espaço do seu tamanho, mal comendo, mal cagando ali mesmo, no meio da fedentina mais hedionda. Escapando vivo à travessia, caía no outro mercado, no lado de cá, onde era examinado como um cavalo magro. Avaliado pelos dentes, pela grossura dos tornozelos e dos punhos, era arrematado. Outro comboio, agora de correntes, o levava à terra adentro, ao senhor das minas ou dos açúcares, para viver o destino que lhe havia prescrito a civilização: trabalhar dezoito horas por dia, todos os dias do ano. No domingo, podia cultivar uma rocinha, devorar faminto a parca e porca ração de bicho com que restaurava sua capacidade de trabalhar no dia seguinta até à exaustão.
Sem amor de ninguém, sem família, sem sexo que não fosse a masturbação, sem nenhuma identificação possível com ninguém-seu capataz podia ser um negro, seus companheiros de infortúnio, inimigos- maltrapilho e sujo, feio e fedido, perebento e enfermo, sem qualquer gozo ou orgulho do corpo, vivia a sua rotina. Esta era sofrer todos os dias o castigo diário das chicotadas soltas, para trabalhar atento e tenso. Semanalmente vinha um castigo preventivo, pedagógico, para não pensar em fuga, e, quando chamava atenção, recaía sobre ele um castigo exemplar, na forma de mutilação dos dedos, do furo de seios, de queimaduras com tição, de ter todos os dentes quebrados criteriosamente, ou dos açoites no pelourinho, sob trezentas chicotadas de uma vez, para matar, ou cinquenta chicotadas diárias, para sobreviver. Se fugia e era apanhado, podia ser marcado com ferro em brasa, tendo um tendão cortado, viver peado como uma bola de ferro, ser queimado vivo, em dias de agonia, na boca da fornalha ou, de uma só vez, jogado nela para arder como um graveto oleoso.
...A mais terrível de nossas heranças é esta, de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres que lhes caem às mãos. Ela, porém, provocando crescente indignação nos dará forças, amanhã, para conter os possessos e criar aqui uma sociedade solidária."
"A DOÇURA MAIS TERNA E A CRUELDADE MAIS ATROZ AQUI SE CONJUGARAM PARA FAZER DE NÓS A GENTE SENTIDA E SOFRIDA QUE SOMOS E A GENTE INSENSÍVEL E BRUTAL, QUE TAMBÉM SOMOS."
LIVRO (inédito) - O Coração Amarelo - Pablo Neruda
Pablo Neruda deixou ao morrer, oito livros inéditos de poesia, escritos quase simultaneamente.
"O Coração Amarelo", "Livro das Perguntas","Elegia", "A Rosa Separada", "Jardim de Inverno", "2000", ""O Mar e os Sinos", "Defeitos Escolhidos".
Nos poemas de O Coração Amarelo estão presentes os temas preferidos do autor - amor - amizade - reminiscências do passado.
Mas percebe-se também nestes versos, uma nota leve, bem humorada e melancólica, como uma despedida de uma grande vida, ou um prenúncio dos negros tempos da ditadura pela qual, seu país, o Chile, passaria.
Aqui, transcrevo alguns poemas do "Coração Amarelo".
OUTRO
De tanto andar uma região
que não figurava nos livros
acostumei-me às terras tenazes
em que ninguém me perguntava
se me agradavam a alfaces
ou se preferia a menta
que devoram os elefantes.
E de tanto não responder
tenho o coração amarelo.
UM
Por incompleto e fusiforme
me entendi com as agulhas
e logo me foram fiando
sem haver nunca terminado.
Por isso o amor que te dou,
minha mulher, mulher agulha,
se enrola em tua orelha molhada
pelo vendaval do Chillán
e se desenrola em teus olhos
desatando melancolias.
Não acho explicação amável
pra meu destino intermitente,
vaidade me conduzia
a inauditos heroismos:
pescar debaixo da areia,
fazer buracos no ar,
comer mesmo todos os sinos.
E no entanto fiz pouco
ou não fiz nada no entanto
senão entrar por uma guitarra e com ela sair cantando.
INTEGRAÇÕES (lindo)
Depois de tudo te amarei
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.
perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.
Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua
na noite do teremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
pode marchar com quatro pés
e quatro lábios a ternura.
Porque sem sair do presente
que é um anel delicado
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um arrebatamento repetido.
Meu Terceiro Ato
Minha avó já dizia que conselhos não servem pra nada, e é a mais pura verdade. Disto, certifico-me a cada dia, mesmo profissionalmente.
Não estou certa se a exposição de minha vivência pode tocar alguém. Talvez, a alguns, ou quem sabe, a ninguém, mas ainda assim, quis trazê-la.
Quem diria, cheguei lá, ou aqui, terceiro ato de minha vida, passou tão depressa, nem percebi, envolvida que estava em mil coisas, pessoas, sentimentos, acontecimentos, com a juventude!!!
Fiquei “pasma” durante algum tempo, e não foi nada fácil aprender o que fazer em cena. Penso até, que minha primeira reação foi observar à minha volta, juntar as representações dos outros atores e copiar. Não deu certo, confesso. Havia muitas coisas que eu não conseguia fazer.
E então?
Achei melhor viver eu mesma, ser o que eu dava conta, mas havia um grande problema, tal não agradava a muitos. Tive que modificar, ajustar, para ser muito aplaudida. Encenar bem, oras.
A consciência de que jamais estaria nos “conformes” foi lenta e dolorosa. E é um processo que não terminou, continua a cada dia, e se repete por muitas vezes.
Às vezes, sinto-me sozinha nisto. Um ET. Mas não é mau, tive que aprender também.
Parece-me que caminho na contramão da avalanche. Pensem bem, uma loucura.
Vamos lá, que processo é este?
Começo pelo principal, tive que recolher-me e começar a dialogar comigo mesma. Chique, não? Todo mundo fala nisto, está nos livros de auto ajuda, mas a empreitada é sofrida, caso a busca seja a coerência, o encontro honesto com nós mesmos.
O bendito diálogo, acredito eu, é cotidiano, interminável, mas é lindo, valioso, fundamental.
Olhem só o que venho conversando com minha mente, com o meu corpo, com minha vida em geral:
-Lamento muito buscar e viver o amor aos sessenta, sei que dirão, a hora já passou, é assim que esperam que eu me comporte. Mas lá vou eu.
-Gargalhadas e molecagens não são coisas adequadas a uma educação mais fina e aos mais velhos? Que pena!!!
-Sobre a beleza e o feminino:
-Um tubo de tinta de boa qualidade resolve bem o problema de meus cabelos brancos, que eu não tenho a menor vontade de mostrar; assim como minhas unhas, ficam “lindas”, se eu mesma cuidar; ganho mais tempo descansando, lendo ou zapeando pela internet em busca do que me interessa. Posso também ir a um bom salão de beleza, sem uma “obrigatoriedade”.
-Creme da avon faz o mesmo efeito do que um francês em minhas rugas, igual para um batom, e juro, não sofro pelos “Diores” da vida. São ótimos, mas não insubstituíveis.
-Roupas de marca, pra que? Adquiri (levou um bom tempo), minhas próprias marcas, e se alguém quiser que eu as carregue, terá que me pagar. Sinceramente, foda-se a moda do vermelho, se eu estou muito a fim do amarelo. Tá usando o rodado? Lamento, gosto do justo. Não estou a mais chique do pedaço? Mil perdões.
-Aliás, venho esvaziando armários e espaços, para que caibam mais informações, viagens, ternuras, amizades e amor em minha vida. Esperta, eu, né?
-Simplicidade, tenho buscado, mesmo que não a alcance algumas vezes.
-Sobre o amor, não vou tê-lo em todas as pessoas com quem convivo, e saibam, já quis muito. Custei a compreender, que mesmo se eu me fizer simpática e boazinha, NÃO TEREI. E aí? Sem mais insistências.
-Meus filhos são maravilhosos, mas a vida deles não pode parar por causa de meus problemas e minha solidão. Já é hora de me haver com estas coisinhas.
Êta terceiro ato danado!!!
Só queria dizer ainda do diálogo com meu corpo.
Ufa, maior conflito quando fui avisada do fim de minha juventude.
Pois é, irreversível, acabou, não volta mais; posso chorar, espernear, FIM. Não quero ficar empacada, não desejo suicidar-me.
No maior golpe de mestre, passei a conviver “graciosamente” com ele. E mais, temos segredos incríveis, impublicáveis, só nossos. Morro de rir quando penso que seria condenada se tais segredos viessem à tona. Justamente por isto, continuamos em cumplicidade absoluta, ignorando o que podem pensar. Batemos bons papos algumas noites.
Minha listinha parece não ter fim.
Querem saber? Chego à conclusão que o terceiro ato tem muito mais ver com o camarim, diante do espelho, do que com o palco. Deixo as encenações para os bons atores.
LIVRO: O Animal Agonizante - Philip Roth
domingo, 15 de abril de 2012
O Mito Marilyn Monroe
Mito, segundo Houaiss, quer dizer:
1-relato fantástico protagonizado por seres de caráter divino ou heróico que encarnam as forças da natureza ou os aspectos gerais da condição humana; lenda, fábula.
2-crença ou tradição popular que surge em torno de algo ou alguém.
3-uma noção falsa ou não comprovada.
Freud destacava que "os mitos mostram uma "ignorância consciente e uma sabedoria inconsciente".
Nós, seres humanos, circulamos entre um "logos" (razão), e o mito, mythos do grego, (que se enuncia sem se justificar), e é daí que advém o nosso equilíbrio emocional.
O mito é da ordem de um simbólico, ou seja, dele, temos representações que nos são transmitidas, e às quais ajuntamos as nossas próprias.
Marilyn era uma mulher belíssima, que perpetuou um apelo sensual no imaginário masculino desde a sua época, e nas mulheres, o ideal de um feminino a ser buscado.
Tornou-se um mito, um MITO SEXUAL.
Quer seja em suas inúmeras trocas de parceiros, ou nas aparições bombásticas em fotos e filmes de Hollywood, o lugar da imagem, do glamour, do sonho. É aí que ela vive a sua "história", os seus amores, a sua trágica e precoce queda.
Interessante remarcar aqui, o fracasso de todas as relações em que ela se envolvia.
Não vou dizer de sua biografia, recontar os fatos já por demais conhecidos. Sim, pois que o interesse ávido pelo conhecimento de seus passos, sucessos, e a sua morte, já foram exaustivamente "explorados" pela mídia mundial.
Tento aqui, numa breve reflexão, responder a algumas questões que me interrogam.
Sigo com uma visão psicanalítica, sem porém, deter-me em conceitos que não estejam ao alcance do leigo.
Ao nascer, a identidade de seu pai é desconhecida. Sua mãe, declarada com "problemas psicológicos", é levada a uma instituição psiquiátrica. Assim, sua infância é passada em lares que a "acolhiam" e orfanatos. Os relatos dizem de violências, abusos, pais alcoólatras, e rejeições. Sua última experiência "familiar", foi num lar de conhecidos, em que, a certa altura, estando de mudança, comunicaram-lhe que não teriam condições financeiras de levá-la. É então que ela se casa com um namorado, aos 17 anos. Esta é a primeira de uma sequência em sua busca de uma relação amorosa com o sexo masculino. Daí em diante, há uma história, que como já disse, conhecida por todos nós.
A questão do feminino marcou todo o percurso da obra freudiana e da própria psicanálise. Em 1932, ele afirma: "A psicanálise não pretende descrever o que é a mulher, mas como advém. Ou seja, como a mulher se desenvolve a partir de uma disposição bissexual" .
Tal afirmativa sobre o feminino, implica uma CONSTRUÇÃO, a partir de uma relação mãe/filha. Implica em uma passagem crucial pelo Complexo de Édipo, e só então, uma identidade sexual possível.
Ou seja, resumindo, o tornar-se mulher é uma "construção".
Não se trata aqui, da diferença de gêneros, homem/mulher, esta, uma diferença anatômica, biológica. Trata-se de um comportamento masculino ou feminino.
O que trazemos de todas estas experiências ao analista é denominado de um "romance familiar".
O que teria sido o ponto de partida de um "romance familiar" para Marilyn? O pai desconhecido, afastada da mãe desde a infância.
A que figura feminina (entre os inúmeros lares em que esteve), a que mãe ou pai, ela se dirigiu buscando um modelo, pelos caminhos de sua história?
De tudo o que sabemos, ficou-lhe um corpo como modelo único da sedução, numa busca repetitiva, alvo dos olhares do mundo; um rosto, marcado por um olhar súplice, infantil, na minha opinião, convidando à criança, olhar este, que foi desde sempre entendido como um convite ao sexual.
Os dois, o corpo e o rosto belíssimos, unidos num mesmo apelo, ou seja, o apelo da criança. Daí, o "fantástico", o "irresistível", o mito. Mito guardado em cada um de nós, o da fantasia.
Foi assim que ela buscou o amor, e claro, nunca satisfeito. O corpo oferecido como um pedaço de carne ao mundo. Dele se serviram alguns homens, chegando às raias de um brinquedinho, como o fizeram os irmãos Kennedy. Ora com Bob, ora com John. Alguns se compadeceram e tentaram fazer um pai, um amigo, mas era preciso buscar mais ... mais.
Uma vítima? Sim, mas uma vítima de suas próprias escolhas, ou seja, de buscar nas relações amorosas o modelo de abuso e abandono que permeou sua infância.
Circulando neste impossível, veio o álcool, os soníferos, o desejo de adormecer, tamponar um "vazio", que incontornável, insistia em sua busca. Algumas tentativas de suicídio se descortinaram como uma saída, um fim a tanto desespero.
Houve um momento, em que este "corpo/rosto" bonito, ensaiou uma construção da mulher, quando em alguns filmes ela mostrou um "além" do pedaço de carne. Uma borda ao vazio: seu talento como atriz. Mas tal não foi eficaz, não se sustentou.
Já no final de sua vida, Marilyn Monroe fez um ensaio fotográfico em que ela se mostra "desvelada" do mito, sem truques de maquiagem, algumas rugas, e, numa das fotos (abaixo), ela diz ao fotógrafo que não quer esconder uma "cicatriz" que traz em seu ventre. Ei-la, mostrando ao mundo uma "marca", "a borda", "o desenho", "o contorno" possível ao seu vazio como mulher. Ele só lhe foi possível no real, no seu próprio corpo.
Seu feminino poderia ser elaborado simbolicamente, em outras construções...que lhe escaparam, impossíveis.
Somente a morte faria calar o grito do "mito".
Incoerência??? É assim que buscamos vê-la. É assim que sua imagem se "congelou" perante o mundo.
UMA NOTA FINAL:
Quando pensei em escrever sobre a Marilyn Monroe, busquei alguns artigos que diziam de sua vida, alguns escritos médicos, e, em quase todos, eu me deparei "estarrecida" com tentativas de "classificações", diagnósticos que a colocassem dentro de um "quadro patológico" já estabelecido pelos anais científicos. É possível até, que ela esteja dentro de alguma destas "patologias".
Mas a meu ver, era um grito a ser escutado mais cuidadosamente.
É exatamente ao que assistimos no mundo moderno, onde entorpecentes fazem "calar" milhares de "discursos depressivos"que precisariam ser "escutados".
Na sociedade capitalista não cabem os "fracassados", os "inadaptados".
Onde o "logos" não dá conta, que prevaleça o "mito". Aliás, o mito não pode ser desvelado impunemente.
Auto-ajuda - farsa diabólica
Fico vendo os inúmeros PPS que recebo diariamente em meus emails. Alguns, com imagens belíssimas, a música, igualmente linda.
Não duvido de maneira alguma das intenções dos que os enviam. Fazem-se presentes com carinho, amizade, e certos de que estarei também feliz ao lê-los.
Olho as listas dos livros “best-sellers”, campeões em vendas por mais de meses, reinando absolutos nas prateleiras, imperdíveis, maravilhosos. Incontáveis edições.
Imagino a fortuna que cada um dos autores recebe, e logo, outros e mais alguns, virão rechear novas listas, novas prateleiras.
Outro dia, li num jornal local que os ingressos para “escutar” um destes autores já haviam se esgotado um mês antes do show/apresentação.
Óbvio, que nestes casos de “audições”, conta muito, não só o conhecimento dos “conselhos” a serem transmitidos, mas também, a oratória, o carisma, o poder de persuasão.
A “praga” está nas revistas, nos jornais, na televisão, nos livros, entra em nossas casas até por mensagens deixadas debaixo da porta.
Sinceramente, dá vontade de rir dos “resultados infalíveis”:
como ser feliz, como ser magro, como ter um amor, como viver a vida, como ter amigos, como ter sucesso, a juventude eterna, enfim, as propostas miraculosas são tantas, que seria difícil enumerá-las todas aqui.
Nem mesmo sabemos por onde começar, a colocar “em ordem” nossas vidas, rumo ao “tudo certinho”, “tudo lindo”, “tudo em paz”. Aliás, uma proposta do capitalismo, onde o que conta é o imediatismo, o consumo rápido. É desta forma, através de tais leituras e ensinamentos, que estaremos aptos e vitoriosos.
Os gordinhos, os incapazes de um amor, os solitários, os não ricos, os mais velhos, os fora da forma, estes, fodam-se.
A “fórmula” está dada, como é que se atrevem a não serem felizes???
Com tantos livros e conselhos, por que tantos males???
Torna-se cada vez mais difícil fazer uso de nossa capacidade crítica e de um mínimo de discernimento, pois, imaginem, que mundo perfeito, e todas as ferramentas para tal, facilmente encontráveis na livraria da esquina, ou no PPS matinal.
Tudo bem, estou nas páginas deste ou daquele livro. Leio e sigo em frente.
Lidar com a psicanálise, no divã ou na escuta, implica em caminhar rumo ao conhecimento de que algo sempre faltará em nossas vidas, que a completude não existe, e dos sofrimentos (enormes) que nos causamos, ao tentar responder a padrões “pré-estabelecidos” de felicidade, de amor, de beleza ou de comportamento.
Tamponar o que nos falta, com promessas de que “tudo é possível”, rápida e facilmente, eis o que nos oferece a auto ajuda. Proposta perversa em si mesma, já que tal tamponamento jamais se realizará.
Situar-nos dentro de nossos próprios desejos é uma tarefa árdua e que nos exige coragem e muito trabalho.
Sustentar nossas próprias escolhas, mesmo que fora de moda, mesmo que na contramão do capitalismo não é fácil.
Mas que não sucumbamos ao ilusório, que não façamos pouco de nossas percepções.
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